“- Hoje eu fiz 18 anos.- disse ela sem pensar.
- É? E o que tem isso? - Os dois estavam no Clio vermelho do pai dele, em frente a boate, sem saber o que fazer depois de litros e litros de Whisky, ela não estava bêbada, dava se para ver pelos olhos, já ele, não se sabia mais, foram tantas vezes que nem sequer os olhos refletiam seu estado.
- Sabe o que as garotas de 18 anos fazem né? - Exclamou, parecia que estava com vontade extrema para aquilo.
- Se formam? Vão para faculdade? Olha mina, nos dias de hoje nenhuma garota dá aos 18, isso é milagre, ta querendo virar freira é? - Ele era irônico e sutil. Mas estava certo, nenhuma das garotas do resto da escola ainda eram virgens.
- Pra algumas garotas é diferente, pra mim e pra você é diferente. - Falou, esticando o decote mais para frente.
- Se quer dar pra mim não precisa fazer drama. - Completou.
- Então… Vai aqui mesmo? No carro? Sem sequer um motel? Caralho eu pensei que seria especial. - Também era irônica a mente dessa menina, sem duvidas.
- Não vai ser aqui. - respondeu.
- Ótimo, onde tem moteis por aqui? - ela fechou o decote e se formalizou.
- Também não será no motel. - Aquilo saiu surpreendendo tudo, seria um maniaco por sexo? O melhor amigo dela? Nossa que aptidão para amizades que ela tinha.
- Então… onde?
- Em lugar algum. Eu poderia ficar com você a noite inteira, me sentar pra tomar café com você no outro dia, ter um filho com você, viver um conto daquela Cinderela recalcada, mas eu não te amaria, não da forma que merece. - E ela se calou.
- Coloca o sinto, vou te levar pra casa. Você não deve estar bem da cabeça nem coração.
“Eu queria entrar em meu mundo e nunca mais poder sair de lá. Quero um mundo perfeito. O meu mundo perfeito. Na verdade, não seria O mundo perfeito, ele seria apenas do meu jeito. Tenho ideais as quais pessoas não entendem, acham até banal… Eu não entendo eles, e eles não me entendem, e isso me irrita tão facilmente como irritar uma criança ao não dar uma bala quando ela quer. Sabe aquela puta sensação esquisita de matar uma pessoa por apenas ela não estar de acordo com a sua opinião? Então, é exatamente isso que acontece comigo e que ninguém entende. Talvez eu queira que o mundo gire em torno apenas de mim, talvez eu queira ter um pouco mais de atenção, um mimo, talvez… Não que eu seja uma criança de cinco anos fazendo birra, não. É que há tanto tempo não tem uma pessoa que chegue e fale para mim “senta aqui, vamos conversar. Prometo que só vou te escutar, deixa as broncas para amanhã” ou “quer um abraço? Vem aqui, só saio daqui quando você estiver bem”. Isso faz falta, muita falta! Se você não consegue entender, acha que é babaquice, tudo bem. Eu também achava. Mas parece que tem horas na tua vida que sua mente fecha, sentimentos esvaece, opinião de ninguém serve e você se retrai. Particularmente, isso é problema. Mas isso passa… Eu “tô” tentando melhorar, mudar, descontrair. O que não dá para mudar mais, sou eu….
— Nathalie Tavares
“A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saber; Não, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama. Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspecão noturna. Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem “me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo”. Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada, jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber. São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinho. Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante! Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamente.
Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não! Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo. Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço. Volto pra casa, destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhas atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de palpitações, descargas de adrenalina, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores, vida. Agora eu já sei. O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto pavor do tédio. Era só isso o que eu precisava saber.
“Eu queria ser:
flor,
ator,
amor,
autor,
vapor,
frescor,
escritor,
multicor,
lenhador,
opressor,
sonhador,
confessor,
descobridor,
colecionador,
tudo menos dor.
“Eu quero mesmo é que tudo exploda. E que seja luminosa, a explosão, que ecoe pelos quarteirões e faça tremer teus vidros, quebrar tuas janelas. Que perturbe teu sono e te faça ir pra rua pra ver o que aconteceu. Você não vai me encontrar lá. Eu não sou o piloto. Não sou o passageiro. Não sou o pedestre. Eu sou o acidente, e eu sou grave.